Memorial Mestre Salustiano

Arquitetura / Projeto cultural

O Mestre Salustiano foi um visionário da cultura brasileira e disso todos nós sabemos. Nos seus sonhos, colocou a arte do povo em primeiro lugar, sempre em um local de merecido destaque. Mas nada disso veio sem muita luta, muito trabalho e muita dedicação de sua parte. O maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro (@mbs.piaba_de_ouro), a Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, o Ilumiara Zumbi e a Casa da Rabeca (@casadarabeca) foram partes materializadas desse sonho grande e bonito.
Hoje, vislumbramos a materialização de um outro sonho, dessa vez um sonho das suas sementes germinadas nesse mundo, seus filhos: O Memorial Mestre Salustiano! Um espaço de salvaguarda da história da arte, da música, das lutas e da vida não só do “Velho Salu”, mas da memória de um país que ainda teima em confrontar as forças vorazes da mentalidade colonial tão viva e tão corrosiva. Um espaço de continuidade entre ontem, hoje e amanhã. O Memorial Mestre Salustiano é, antes de tudo, um espaço político de afirmação que a arte e cultura de um povo venceu! Venceu as barreiras do preconceito e do abandono; venceu as barreiras do desamor pelo Brasil. O Memorial é um foco de resistência e testemunho da força e importância do Mestre Salu na luta pela cultura brasileira.
Não por coincidência, o local da sede do Memorial é o último exemplar da memória da arquitetura rural no sítio onde se encontra, urbanizado ao longo dos anos e metamorfoseado pela contínua pressão externa por uma nova estética arquitetônica neutra, asséptica e genérica (e, podemos acrescentar, desvitalizada de sentido). A proposta do novo espaço enfatiza essa relíquia arquitetônica – uma “casinha” de porta e janelas com coberta de uma água, hoje sem uso e quase em ruínas – e lhe chama à vida novamente para marcar as memórias do próprio Salu e de suas origens na vida rural, comunitária, mais afetiva e festeira.
Com o restauro da “casinha” e com a necessidade de acréscimo de área para a salvaguarda do acervo da família Salu, optou-se pela inserção de um primeiro pavimento com um novo volume em tijolo ecológico aparente, com feição sóbria e reservada por respeito ao exemplar vernacular. Assim, o objeto arquitetônico novo “brota” do objeto arquitetônico vernacular e não pede nenhum destaque a si. Ao contrário, ambos configuram um novo objeto arquitetônico que respeita a história e suas memórias. O Memorial ainda se articula com seus espaços externos, conectando o terraço à sua frente com o terraço aos fundos – ambos abraçados pro frondosas árvores, e com o terreiro do Cavalo-Marinho da família Salu à sua frente. Ele não só congrega os espaços físicos, mas também se configura como ponto de articulação para educação e preservação da cultura brasileira.

Projeto com a colaboração de Bono Arquitetos (@bonoarquitetos)
Ano: 2025